Aristóteles e Juventude

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Foi publicada uma pesquisa entre jovens estudantes de quinze universidades da capital e região metropolitana de São Paulo em que diante da frase “baladas e jogos me motivam mais do que as aulas” apenas 16,1% dos estudantes disseram discordar totalmente, levando o jornalista Gilberto Dimenstein a intitular um artigo comentando a pesquisa de universidade do prazer.[1]

 

A essência da pesquisa é que muitos jovens enxergam na universidade um espaço de prazer, onde se misturam baladas, drogas e sexo[2]. O responsável pela pesquisa Marcos Calliari identificou também um imediatismo exacerbado nessa geração de jovens, vivem intensamente como se não houvesse amanhã, circunstância essa facilmente perceptível nessa geração que também pode ser chamada de virtual, onde a barreira de uma pantalha separa vidas com uma naturalidade tecnológica preocupante.

 

É natural da juventude a entrega ao prazer, ao novo, e dar vazão ou escolher seguir emoções e sentidos é inerente a essa idade e sempre recebeu o tratamento de normalidade. A universidade é um caminho novo na vida das pessoas e é aceitável e recomendável que se exista espaço para a diversão e entretenimento; mas no momento em que o prazer e diversão são elevados ao primeiro plano e até substituindo o aprendizado acadêmico, chamo-nos a atenção que algo pode não estar indo bem.

 

Ao cultivar o hábito de somente observar seus desejos poderá tornar referida colheita de cidadãos incompletos e despreparados já que se distanciam de um ponto de equilíbrio entre a razão e o cultivo do desejo e prazer.

 

Talvez Aristóteles tivesse dificuldades outras para escrever um roteiro ou guia atualizado para que seu filho Nicômaco pudesse chegar a uma vida contemplativa e feliz; mas a essência de seu pensamento pode ser aplicado ou discutido para essa geração, mesmo porque Ética a Nicômaco já atravessou milênios, permanecendo viva, talvez mais do que na época em que foi escrita.

 

“A virtude moral é a qualidade segundo a qual se age da melhor forma em relação aos prazeres e dores e que o vício é o oposto”[3]. Aristóteles demonstrava uma preocupação maior ao prazer, segundo o filósofo grego o prazer exercer grande efeito sobre a conduta e chamava aquele que não lidava de forma equilibrada com o prazer de desregrado, que “deseja todos os prazeres ou aqueles que são os mais intensos e é levado por seu desejo a persegui-los de preferência a tudo o mais”.[4]

 

Aristóteles contradizendo Platão entendia que o sentimento e o desejo não podem ser contidos ou neutralizados, mas sim harmonizados, de sorte que desejo e prudência[5] possam caminhos juntos em pleno equilíbrio.

 

Parece-nos que a solução – ou melhor, uma indicação para se chegar a uma – é que não somente os jovens, mas todos os homens devem sempre focar o caminho do meio, socorrendo-nos novamente dos ensinamentos de Aristóteles, o caminho a ser traçado para a busca do equilíbrio é o da mediania, o ponto de harmonia necessário para se fugir dos extremos:

 

Ora, de tudo que é contínuo e divisível é possível tomar a parte maior ou a menor, ou uma parte igual e essas partes podem ser maiores, menores e iguais seja relativamente à própria coisa ou relativamente a nós, a parte igual sendo uma mediania entre o excesso e a deficiência. Por mediania da coisa quero dizer um ponto equidistante dos dois extremos, o que é exatamente o mesmo para todos os seres humanos; o que é exatamente o mesmo para todos os seres humanos; pela mediania relativa a nós entendo aquela quantidade que não é nem excessivamente o mesmo para todos os seres humanos.[6]

 

 

Mas para se atingir a mediania não podemos usar um cálculo meramente aritmético porque dessa forma jamais atingiríamos o ponto de equilíbrio ideal, é preciso criar um juízo valorativo ou quantitativo dos dois extremos para chegarmos ao equilíbrio. Isso se justifica porque não há forma de mensurar sentimentos ou razão, mas sim observá-los de forma prudente para que a ação consiga estabilizar os extremos.

 

O ensino universitário deve ser encarado pelos jovens realmente como uma preparação para o mercado de trabalho ou científico, mas também não pode deixar que referido aprendizado seja exercido de forma tão intensa que outros elementos da moral e da alma humana sejam olvidados, inclusive o prazer, mesmo porque ser estudante universitário é momento único e merece ser vivido de forma saudável e construtiva.

 

Essa falta ou ausência de interesse social se acentua na juventude e demonstra ser mais grave já que a virtude é um hábito e deve ser praticada o quanto antes para se solidificar e crescer em terreno fértil; não significando que sua não utilização prévia  possa comprometer a formação do homem bom e feliz, mas sim que postergar o hábito pode dificultar a obtenção desse resultado.

 

O que precisamos são de jovens universitários felizes, mas não no sentido ordinário da palavra, mas sim uma felicidade no fazer o bem, balanceada e com responsabilidade social. O equilíbrio ou algum indicativo nesse sentido fomentará a criação desses universitários que serão a elite política, empresarial, cultural e social do país, aliás, por oportuno lembrar as sábias palavras de Gabriel Chalita: “é aos moços que se entrega a tocha que iluminará a escuridão reinante (…) é neles que se deposita a esperança[7].

[1] Jornal Folha de São Paulo de 21 de setembro de 2009, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd210909.htm, acesso 11 de novembro de 2009.

[2] O pensador existencialista francês Teilhard de Chardin classificaria esses jovens como os boas-vidas (categoria de pessoas) que vivem o presente, apegados a sentimentos egoísticos.

[3] Ética a Nicômaco. 2ª edição 2007. Tradução e notas Edson Bini. Bauru: Edipro, 384-322 a.C, p. 72, Livro II.

[4] Op. cit, p. 114, Livro III.

 

[5] “A prudência comporta três atos: o primeiro é aconselhar, que diz respeito à descoberta, pois aconselhar é inquirir; o segundo ato é julgar, avaliar o que se descobriu, e este é um ato da razão especulativa. Mas a razão prática, que se volta para o agir, vai mais além no terceiro ato, que é comandar: aplicar ao agir o que foi aconselhado e julgado” (Aquino, Tomas de. A Prudência. A virtude da decisão certa. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 36.

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[6] Op. Cit, p. 76, Livro II.

[7] CHALITA, Gabriel. Educação: a solução está no afeto. 15ª edição. São Paulo: Editora Gente, 2001, p. 37.